Terça-feira azul de novo.

..A avó era contra o microôndas. Tendo em vista o outro extremo da questão, não devia também não ser a favor das geladeiras e refrigeradores? Já o pai dela, o velho Afrânio, passou do século de vida. Para chegar a ver os bisnetos, engolia um ovo cru, a caneca cheia de café sem açúcar, e metade de uma jaca inteira pelas manhãs. Todas as manhãs. Nos últimos anos ainda era imbatível no dominó. Pela metade masculina dos genes, o avô morreu cedo. Dizem que de acidente de bebida e automóveis, início de 70.
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..O piano, um dos mais velhos membros da família, tinha viajado do litoral à capital, desbravando bravamente o cerrado do planalto amarrado na caçamba de um caminhão. Nos últimos tempos andava tão desafinado que todas as teclas martelavam a mesma nota. Dizia Didinha que era um Lá, igualzinhoo do telefone só que gravão. O gato laranja era o único que arriscava arranhar alguma melodia, espreguiçando-se sobre as teclas pretas (que noutra época foram sustenidos e bemóis) para por fim acomodar-se preguiçosamente no acorde esquisito que acordava a casa toda. Em cima do piano, as fotografias contavam o lado feliz das histórias; de quando as primas ainda se falavam, o mais velho ainda cabia no enquadramento, o pai ainda tinha bigode e o avô ainda tinha cabelo. Os retratos não se importavam que o piano estivesse fora de tom, o que os incomodava mesmo era o rangido dos pedais e a cara das visitas que zombavam dos seus penteados.
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..Dona Nair divertia-se com as explosões nucleares na panela de sopa de cebola. Agenor tinha uma nova obsessão: documentar o primeiro e último capítulos de todas as novelas. Onofre percorria a lista telefônica, passando trotes musicais pela cidade. Discava o número e, sem dizer nada, encostava o falador na vitrola. Pretendia assim educar toda a população nos autos sinfônicos de Eliomar Palmeira. Salete passava o dia ouvindo a estática do rádio, tentando reconhecer vozes do além. Contava as formigas que saqueavam o pote de manteiga, esmagando uma a uma com o polegar e queimava as antenas dos grilos no quintal com a lupa que fora do avô. Pedrinho tornara-se matador de aluguel há pouco tempo. Ia toda semana na rodoviária comprar o tablóide com as fotos dos cadáveres. Ia completando a coleção enquanto gabava-se de seus "trabalhos". Um dia apareceu na capa, derrotado pela concorrência, com um sorriso no rosto espalhado na calçada.
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..O país era mesmo engraçado. Enquanto em qualquer parte um guarda-chuva custava cinco pratas, pilas, putos ou contos, cá só o conserto não saía por menos de dez. Isso na época da seca. Por alguma razão misteriosa, nas notas fiscais os valores sempre saíam dobrados. Com o tempo passou-se a acreditar que a moeda valia mesmo o dobro, mas só o preço do papel e da tinta e do cobre era o triplo. A capital do país, cidade peculiaríssima, estava constantemente em construção. Quando não se estava levantando, reformando, ampliando, invadindo ou superfaturando alguma coisa, implodia-se. O governador sentimental tinha uma queda pelos explosivos, algo no cheiro de pólvora que o lembrava as caçadas de passarinho da infância, junto com um amiguinho loiro e fresco por quem fora secretamente apaixonado.

2 comentários:

argh, lemòn disse...

genial.

gabriel renner disse...

Textos bongolês? Seria uma nova forma forma de literatura? O dia que a minha Bongo chegou em casa, era um dia de chuva, um misto de melancolia e preguiça, mas que até um episódio do chaves visto pela centésima vez me pareceria confortante. Abri flogo o pacote, e oo resto do dia teve um gosto todo especial. Sempre que leio estes textso com esta construção característica, sinto o que senti naquele dia. muito bom.