Parênteses: Esse ano o calor seco pegava de jeito.

A qualquer instante. Era alguém coçar picada de mosquito, como lembrou um amigo, e no efeito dominó incendiário a cidade pegava fogo em combustão espontânea (ou nem tão espontânea assim, culpa da estática, mas isso é assunto proutra hora) que nem as mangueiras e os helicópteros dos bombeiros seguravam o estrago.

A alma das pessoas evaporava aos poucos.

Já não havia nuvens, apenas poeira, tosse e meleca de nariz.
Até as cervejas perdiam a graça. Cigarro então, nem pensar. Não poderia haver idéia mais estúpida sob essas condições. Mesmo que os pulmões não concordassem, eles que estavam perdendo o bronzeado.
Dissolveram-se as amizades, como todo ano. O contato social minguava, medroso.

As cordas dos instrumentos desciam meios-inteiros-e-micro tons, prarrebentarem à primeira tentativa de afinação. Não era como nos filmes de guerra em que o piano da grande cena emotiva resistia, intacto e afinado, a nevascas e bombardeios.

O condomínio racionava a água do poço. As piscinas dos barões desciam 3 palmos por hora.
Em breve não ia carecer mesmo nenhuma das três pontes paratravessar o lago pro lado de lá.
Seria o fim das aulas de remo. Os filhos dos barões encostariam as lanchas e os jet-skis.

As baratas migravam para a geladeira. Diziam preferir o holocausto nuclear àquele clima.

O ventilador velho voltava a circular por aquelas bandas, após os três meses sem chuva e os recordes dos termômetros-higrômetros.

Testava a sorte, curioso. Vez ou outra arriscava um joguinho na lotérica. Marcava quina, constatando após muita reflexão que mega-sena acumulada era dinheiro demais, o que só poderia trazer problemas. Concursou salão de humores internacionais com caricatura incompreendida do rato Mickey. Decidiu participar também, depois de ver a propaganda na tevê, do Concurso Nacional de Marchinhas Carnavalescas. Em um dia escreveu a música sobre o eterno enigma do páreo entre o ovo e a galinha. O correio da inscrição para o Rio de Janeiro custou-lhe os olhos da cara. Mas vai que conquistava os foliões, mudava-se para a cidade maravilhosa e vivia dos seus sambas capengas pelo resto da vida! Melhor que cultivar faminha de bandinha na capital...



Mas na verdade o sonho do panaca era escrever uma novela no horário nobre.

3 comentários:

Gabriel disse...

Dissolveram-se as amizades, como todo ano. O contato social minguava, medroso.

Essa frase me tocou o coração, perdi boa parte dos meus amiguinhos porque me recuso a sair de casa...

you know my name. disse...

floquinhos de névoa seca, o fog candango.

roberta ar disse...

e agora a fase de acasalamento das plantas. esse pólen todo vai acabar com o meu nariz.